CARNAGE Filme para quatro atores e um hamster





O Deus da Carnificina (o título português sugere um filme de terror), o melhor filme de Polanski dos últimos dez anos, tem a estrutura simples de uma peça de teatro para quatro personagens


Há uns jogos para quem gosta de se embebedar no cinema ou testar a sua resistência ao álcool populares em algumas paragens. Consiste, por exemplo, em beber um copo cada vez que se diz a palavra 'fuck', em Pulp Fiction, ou sempre que Nicholas Cage bebe um copo em Leaving Las Vagas. Agora os adeptos de drinking games podem acrescentar mais um desafio à lista, talvez num nível intermédio, que consiste em beber um copo cada vez que Cristoph Waltz fala ao telemóvel em Carnage, de Roman Polanski. Catorze, demo-nos ao trabalho de contar, descontando as quatro mensagens de textos, dependendo da bebida escolhida e do tamanho do copo, provoca um grau de alcoolemia considerável. Também há três chamadas para John C. Relly e três ameaços de saída de casa que nunca se chegam a concretizar. Mas isso não conta. Este tipo de repetição, muito usado nas peças de teatro, funciona como uma espécie de rima, que ampara a peça e agarra o espetador à personagem, é como se lhe desse o ritmo.
O Deus da Carnificina (o título português sugere um filme de terror), o melhor filme de Polanski dos últimos dez anos, tem a estrutura simples de uma peça de teatro para quatro personagens. Exige bons atores e essa terá sido a maior preocupação de Polanski, num filme de baixo orçamento. Um quarteto de luxo: Jodie Foster, Cate Winslet, John C. Relly e Cristoph Waltz. É um filme que pretende explorar o sempre misterioso mundo das relações humanas, ao estilo de John Cassavetes e de Woody Allen, em que tudo existe num débil equilíbrio pronto a ser desfeito.
Roman Polanski está impedido de entrar nos Estados Unidos sob a pena de ser preso e julgado por um crime cometido há décadas. Quem não pode filmar Nova Iorque por fora, filma Nova Iorque por dentro. Recorde-se que já no anterior, Escritor Fantasma, Polanski situou grande parte da ação nos Estados Unidos, aqui refugia-se dentro de um apartamento nova-iorquino. Carnage é um filme de interiores, mas o que mais interessa é o interior das personagens, que se vão descobrindo, pelo lado mais negativo, em camadas, como uma casca de cebola. É uma desconstrução da futilidade americana, do mundo de aparências, que ali parece exagerado, mas que faz parte de todas relações sociais. O pretexto, uma agressão entre duas crianças, indicia um mundo violento, mas o problema, como se deixa ficar claro são os adultos, ou, se quisermos generalizar, a incompetência do ser humano enquanto animal social. Como desabafa Penélope (Jodie Foster): "Mas porque é que tem que ser sempre tudo tão difícil?"
A construção dos diálogos é brilhante, com momentos de humor e angústia e desespero. A reflexão sobre as relações sociais aparece de forma natural, sem nada de forçado. Há um adiamento constante da saída de casa, que provoca um adensamento da crise e a descoberta dos pontos fracos (a fragilidade de John C. Relly é um hamster abandonado). Só que a persistência em nada a beneficia, de onde se conclui que as relações formais são feitas para serem formais e não devem sair dessa redoma superficial e cuidadosa. À medida que se quebram as barreiras entre os dois casais, desvendam-se também as fragilidades internas dentro dos pares. E quase tudo cai. As crianças têm motivos para estarem preocupadas com os adultos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário